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quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Matemos os pobres!" um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire

MATEMOS OS POBRES!
Charles Baudelaire (de seus Pequenos poemas em prosa)

Fazia quinze dias que eu estava exilado no meu quarto, cercado de livros em voga na época, isto é, há dezesseis ou dezessete anos atrás. Refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Eu digerira, ou melhor, engolira todas as elucubrações de todos esses empresários da felicidade pública, que aconselham os pobres a se tornarem escravos, e de todos os que procuram convencê-los de que são reis destronados. Não será de admirar que eu estivesse, então, num estado de espírito que se aproximava da vertigem ou da estupidez.
Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago.
Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos.
Ao entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu, lançando-me um desses olhares inesquecíveis que seriam capazes de derrubar os tronos, se o espírito pudesse abalar a matéria e se os olhos de um magnetizador lograssem amadurecer as uvas.
Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates (1) tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut (2) e pelo circunspecto Baillarger (3)?
Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate.
Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: 
- Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.
Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um
rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia.
Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife.
De repente, - oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! - vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida.
Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico (4), disse-lhe o seguinte:
- Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas.
Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.

(1) Ilustre filósofo grego, cuja doutrina foi exposta por Platão.
(2) LELUT (1804-1877), famoso psiquiatra, autor da obra Do Demônio de Sócrates.
(3) BAILLARGER (1806-1891), célebre alienista, autor de um Ensaio de Classificação dos
Doentes Mentais.
(4) Seita filosófica dos estóicos, cujo chefe, Zenão, ensinava debaixo de um pórtico de Atenas.

Sobre "Baudelaire e Freud" de Leo Bersani

Há duas madrugadas terminei a leitura de Baudelaire e Freud  (DIFEL, Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho,1979) de Leo Bersani.Não vou escrever sobre este livro porque não domino o jogo da psicanálise, então minha leitura parece que sempre fica inacabada. Faltam pressupostos de pressupostos de pressupostos... O silêncio nesse meu caso deve dizer alguma coisa.
Mas vamos lá. O melhor do livro é o último capítulo onde o autor trata de certo conflito entre o moi créateur (o vagabundo, o ator, o palhaço e o artista participam desta categoria) e o moi social (que incluiria o dândi, o príncipe, o narrador espectador imparcial etc). O motivo da minha leitura também está neste capítulo, num pequeno trecho citado por Richard Rorty em Contingência, Ironia e Solidariedade: "A teoria psicanálitica tornou a noção de fantasia tão profundamente problemática que não deveríamos mais considerar como certa a distinção entre a arte e a vida, ou julgarmos que a palavra "criativa" não tenha o mínimo valor análitico" (p.112). (Este último período - "ou julgarmos..."- foi omitido por Rorty.) Somando esta descrição a desenvolvida por Philiph Rieff do inconciente como a privatização do gênio romântico e estamos com a "base" de uma estética e de uma moral emergente.
Chamou-me muito a atenção um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire chamado "Matemos os pobres!" que justificaria a aproximação do principe-dândi de Baudelaire de um herói nietzschiano.
Coloco este texto de Baudelaire num outro post.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Merci - peça de Daniel Pennac

A atriz Ana Barroso é a intérprete da peça Merci de Daniel Pennac

Quais devem ser os direitos de quem vai assistir a uma peça de teatro? Vamos consentir que você já comprou o ingresso; a partir disso é necessário alguma preparação especial? Os panfletos dão algumas informações e no caso da peça Merci de Daniel Pennac me dei o direito de não saber nada sobre o autor. Depois é que me contaram de seu decálogo dos direitos do leitor, de seu livro Como um Romance, de seu trabalho como pedagogo... Confesso que não o conhecia e ainda não o conheço, mas sei que escreve muito bem e tem aquele mal humor rabugento de quem não faz concessões ao lugar-comum, a vivência sem experiência (como diriam outros). 
Pois bem, a peça está em cartaz no Centro de cultura da Justiça federal no Rio de Janeiro. O título Merci traz o mote do monólogo: quando um autor recebe um prêmio por suas obras completas como deve agradecer, a quem deve agradecer, o que significa esta honraria e os lugares-comuns desta canonização... a peça examina este género de discurso na medida que constrói um discurso deste tipo nos fazendo rir da série da má-fé e do absurdo desta encenação da entronação de um autor. Até que ponto esta seria também uma forma de domesticá-lo? Mas, como agradecer (ou não agradecer) então? Qual evento ou quem colocar no centro desta forma metafísica de ficção auto biográfica?
Fiquei com a impressão de que o autor não encontraria nenhuma resposta e que destilava apenas um ressentimento crítico que poderia servir para apenas "renovar o género". A solução de Pennac foi "pedagógica", apontando para a função da literatura e os terrores de uma educação que não cuida e desenvolve a integração, mas faz gravitar na periferia as diferenças, reproduzindo os vícios de uma sociedade que não queremos no futuro. Fiquei pensando  no dia em que alguém agradecera aos que na escola lhe amedrontavam, na medida em que assim, criou força para se inventar e manter sua diferença, o que chamam de sensibilidade. Será preciso reproduzir este jogo de autoritarismo sádico? Esta pergunta vêm me incomodando mais e mais a medida em que volta e meia rememoro minhas aulas (assistidas e ministradas) e percebo a dificuldade em perceber a repetição deste tipo de lugar-comum autoritário. Perceber isso já ajuda a mudar. 

P.S.: Bem... a peça funcionou sem este saber prévio sobre o autor. Mas estariam nos direitos do espectador a possibilidade de que, em casos involuntários (como sempre o são), em que seu estomago emitisse ruídos estranhos (urros que fazem pensar no nascimento de algum novo Alien) contar com a indiferença paisagística do espectador ao seu lado? Lógico, cabe ressaltar que não se trata de nenhum evento que envolva emissão de algum tipo de poluente, mas simplesmente de sons estranhos vindo de seu estômago. Seria este um direito alienável do espectador: contar com a indiferença solidária de quem está o seu lado e compartilha este som? Penso que este deve ser um direito básico! E no caso da pessoa ao seu lado ser sua namorada? A situação muda de instância do Fórum dos Direitos dos Espectadores para o Forum dos Direitos dos casais de rirem das gafes mútuas? Defendo que não deveria haver está transferência de instância e espero que rememorando a cena do nascimento do Alien possa promover uma indiferença cautelosa ao menos: vai que é o nascimento de uma coisa assim!  



domingo, 10 de abril de 2011

Poesia - um filme deste cânone acidental

Assisti semana passada este delicado filme coerano. Ganhador em Cannes do prêmio de melhor roteiro o filme tem também como destaquea ótima atuação da atriz Yoon Hee-jeong, que interpreta uma avó afetada pelo Alzheimer que busca na poesia uma forma de redenção para seus inúmeros problemas. Entre o cultivo da palavra e seus esquecimento, entre a iminência da morte e a violência inumana; o filme trata tambémd a posição da mulher numa sociedade em que as diferenças de gênero são profundas.
Não quero fazer uma resenha, um resumo aqui. Cabe manter o convite para aquelas pessoas que não gostam de assistir nada que as tire o chão e produza transformação... vale se inspirar nesta poesia para que procuremos a nossa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

HQ: Mariposa, de Marcatti

Hoje li Mariposa. Uma HQ de um autor que não conhecia, Marcatti. Na verdade minhas leituras de quadrinhos são esparsas, mas estou criando um hábito de vez por outra ler uma ou outra obra. 
No caso a leitura vale muito a pena. O texto de Marcatti é muito bom e auto-irônico, parodia uma voz existencialista em off que, na maioria das vezes, romanceia uma realidade crua que o leitor "vê" nos quadrinhos. Esse jogo é muito interessante. Não é por acaso que essa sua obra foi premiada.
O padrão das relações que descreve é de parasitagem, que na narrativa gera surpreendentes harmonias entre velhas prostitutas que se tornam esposas, envelhecendo seu marido; e jovens esposas que traem seus maridos, rejuvelescendo seu amante. O fantástico da narrativa é cético e faz o leitor voutar para a apresentação inicial dos livro, que com palavras medidas nos apresenta a matriz desse universo.

sábado, 2 de abril de 2011

"a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado"


O último livro que li (de cabo a rabo) foi Fogo Pálido de Nabokov. O livro de início me pareceu cansativo. Me disseram; "é que você está se acostumando a prosa de língua inglesa, com suas sentenças curtas e ritmo mais rápido". Deve ser isso. Mas fui até o fim da leitura e a verdade é que Nabokov me derrubou. O livro é muito, muito bom! Meu estranhamento inicial era necessário para que ele pudesse produzir o seu efeito poético. 
Numa edição americana a introdução do livro é escrita por Richard Rorty, filósofo que é tema e problema das minhas insónias atuais. Rorty também fala sobre este livro no texto que escreve sobre Lolita em Contingência Ironia e Solidariedade.O encanto de Rorty talvez se sintetize no verso "a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado". Para Rorty somos este poema inacabado. Seria a partir desse verso que se estende o livro de Nabokov. Mais não digo. Vale a leitura. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

BBC: O século do self


Descrição: Documentário da BBC sobre como aqueles no poder usaram as teorias freudianas para controlar multidões perigosas numa era da democracia de massas. Legenda traduzida para português.
São 13 vídeos.Duração total: 2 horas, 18 minutos
 
Devo crédito para Janos Biro pela indicação.