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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Uma ciência para antecipar e bloquear a ação de hereges acadêmicos


“– Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
 – Mas que certamente infligirão – afirmou Witner com convicção.
.– Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta. Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes. E, de certa maneira, são inocentes.”
DICK, Philip K. Minority Report.   


Quando uma Utopia, minuciosamente escada em uma teoria, é colocada em ação, tende a se reificar como dogma, cerceando a liberdade individual em favor do “ideal coletivo”. Ora, após a Segunda Guerra Mundial tornou-se comum, na literatura e no cinema, narrativas que descrevem sociedades futuras onde ideais utópicos de organização social por meio da tecnologia se degeneram em governos repressivos e autoritários; tornam-se Distopias. O conto de Philiph K. Dick “Minority Report” é uma destas narrativas de ficção científica que dramatizam o conflito entre as demandas de coerção social e o espaço de autodeterminação individual. Descreve uma sociedade futura que utiliza a ciência para antecipar ações violentas e prender seus “praticantes” antes mesmo que ele tivesse possibilidade de cometer qualquer delito. Tal ciência está longe de ser possível, mas o conto de Dick nos ajuda a imaginar situações e contextos mais restritos onde o mesmo discurso de “ataque preventivo” – fundado em uma metafísica absoluta – é utilizado para manter a estabilidade de uma determinada sociedade. 
Podemos imaginar que se houvesse mesmo uma ciência capaz de predizer com exatidão o tipo de escolhas intelectuais que cada um estaria inclinada a tomar em sua trajetória acadêmica, esta seria utilizada em processos seletivos para desqualificar os candidatos perigosamente subversivos. De qualquer forma, tal “ato preventivo” livraria a Academia de seres anômalos, que nas bancas de concurso escondem suas tendências desviantes em relação à auto-imagem paradigmática de sua disciplina.
Ora, tal ciência preditiva ainda não existe, no entanto, acena explicitamente em situações que são presságio para está visão de Distopia de uma Universidade futura com uma elite reificada que compartilha a fé em um mesmo dogma metodológico. Tal ideia pode não parecer tão negativa, já que descreve uma perspectiva que normalmente é aplicável aos padrões de racionalidade, apostando a estabilidade como platonicamente pressuposta na República de Platão, onde todos os esforços se direcionam contra a perversão da ordem.
Caricaturas positivistas deste ideal de cientificidade acabam sendo parte do cotidiano do jogo acadêmico na busca por profissionalização e certeza. Podemos dizer isto também do sistema de “revisão por pares” nas revistas científicas? Não estariam mais propensos a ser aprovados projetos de pesquisa onde os resultados já são pressupostos? Não estaria acenando aí os perigos de uma “metafísica absoluta” que impossibilita a inovação?