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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Juca Entrevista com Manuel Sérgio

parte 1

parte 2

parte 3

A filosofia do Futebol de Manuel Sérgio (e José Mourinho)


Sérgio, Manuel. Filosofia do Futebol. Primebooks:, Lisboa, 2009. pp.143.

O técnico português José Mourinho tem Manuel Sérgio como Mestre (Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mourinho_Madrid.jpg)

 
A palavra filosofia volta e meia aparece na cronica esportiva. Geralmente isso acontece quando um time troca de técnico e o novo “professor” promete implementar uma nova “filosofia de jogo”, "filosofia de trabalho", “filosofia táctica” etc. O livro de Manuel Sérgio Filosofia do Futebol promete dar um sentido mais claro para tantos usos da palavra filosofia nestes contextos. A justificativa de tal promessa estaria no fato de que o português José Mourinho, hoje treinador do Real Madrid e campeão nos diversos clubes por onde passou, teria se inspirado na lições de filosofia de Manuel Sérgio, a quem toma com um mestre. A curiosidade para entender como se daria essa “inspiração” e quais seriam as lições do autor português, me fizeram encomendar o livro.
Apesar de uma bonita capa a edição é extremamente descuidada. Falta revisão (o uso excessivo de negrito é injustificado e desagradável, as referências bibliográficas são colocadas de forma  incomoda, no decorrer do texto, por vezes,com troca de nomes - como o jogador "Daniel Messi", a filósofa "Madalena Chauí"; erros de digitação e diagramação etc.). Resumindo minhas ressalvas: a impressão é de que o livro surgiu de uma apostila cheia de apontamentos sem revisão, aonde, na maioria das vezes, a conexão entre reflexões epistemológicas e o futebol não é de forma nenhuma evidente (ou existente!). A parte a tentativa de validar suas reflexões a partir da "visão privilegiada" autorizada pela perspectiva (mística) da complexidade de Edgar Morin, podemos encontrar em Manuel Sérgio alguns motes interessantes para reflexão. 
Manuel Sérgio se apresenta como fundador de uma ciência, a Ciência da Motricidade Humana (CMH). Não deixo de ter alguma desconfiança quando alguém com formação filosófica funda uma ciência , assim como quando funda uma seita, mas nesse caso a afirmação de Manuel Sérgio para mim se traduz na promoção de um questionamento fundamental sobre a educação física e toda a ideia de preparação física. Se isso implica na criação de uma "ciência" não tenho condições de saber (e nisso tenho pouco interesse). Manuel Sérgio vincula todo trabalho de "educação física" a uma pergunta anterior e utópica:" Que tipo de homem quero eu que nasça do treino, ou da competição, que vou dirigir?" (p.47). Neste sentido, a atividade física deve ser pensada como parte de uma formação humana que busca a transcendência, o aprimoramento de cada atléta como ser humano. Neste sentido, "para saber de futebol é preciso saber mais do que futebol", assim podemos trazer para esta atividade um sentido moral e politicamente emancipatório. 
O sentido dessa afirmação iluminista, sobre a necessidade de uma dimensão emancipatória humanística no cultivo dos esportistas pode ser exemplificada por diversos exemplos de atletas com grande potencial mas sem a formação cultural necessária para lidar com as vitórias (e as derrotas) o sucesso, a fama, o fracasso, o esquecimento etc. Manuel Sérgio afirma: "O que são David Bechkam, o Fernando Torres, o David Villa, o Messi, o Kaká, o Franck Ribéry, o Eto'o, o Ibrahimovic, o Cristiano Ronaldo, etc., etc.? Com toda a certeza, novos deuses! Mas não foram eles que nos criaram à sua imagem e semelhança. Fomos nós que os criamos à nossa imagem e semelhança. Nós precisamos de exemplos de transcendência, para tomarmos a consciência de que podemos não ser "objectos" da história, mas "sujeitos" construtores da história" (p.76).
Quando o técnico Mourinho aceitou a saída de Adriano da Inter de Milão sem impor maiores dificuldades, destacou que estava pensando na recuperação do ser humano e que este era o mais importante. Quando Adriano chegou ao Brasil disse que abandonaria o futebol, que não se sentia mais em condições de continuar. Pouco tempo depois acertou contrato com o Flamengo, onde foi artilheiro e campeão. brasileiro . De volta a Roma hoje, em uma entrevista explicou : "Não menti a Moratti [presidente do Inter], não me zanguei com ninguém. Mas não aguentava mais. Mourinho tinha consciência disso. Sentia-me sozinho, sem família, sem motivos para sorrir. Pensei até em deixar de jogar, mas agora estou bem», acrescentou o avançado que reconheceu ter passado por uma depressão mas negou problemas de alcoolismo" (no site português Mais Futebol).
 Porém, por sua dificuldade em seguir as rotinas de treinos e atividades que fazem parte da rotina de um jogador profissional, acabou sendo descartado da lista de Dunga para a Copa de 2010. e agora novamente tem problemas na Roma. É certo que a indisciplina de Adriano e sua falta de compromisso como atleta justificam a escolha de Dunga, mas também é evidente que nenhum outro atacante tinha o mesmo potencial deste que foi chamado de Imperador. Mas, para que treinador da seleção pudesse contar com este jogador seria necessário que ele, Dunga, também tivesse uma formação humana abrangente que o permitisse ajudar na emancipação de Adriano. Isso não significa de forma alguma o atalho moralista de fundamentalismos religiosos que estão "na moda" na fala de diversos treinadores de futebol hoje. Sérgio diria que é necessário que saibam filosofia! Defende ele mesmo a presença de um filósofo na comissão técnica dos times de futebol.  
Pessoalmente sou cético quanto aos "poderes" clínicos da filosofia, mas parece ser evidente que uma formação humanística mais ampla é hoje uma necessidade no esporte. Se nossos símbolos de transcendência hoje são os jogadores, se são eles nossos heróis, então é necessário que estes não sejam meros produtos, corpos sem linguagem. O sentido de nossa arete (virtude, excelência) parece estar aí em jogo também, "queremos uma sociedade de guerreiros espartanos fundamentalistas?", "queremos uma sociedade de adultos que nunca amadurecem?". Como sublinha Manuel Sérgio "A transcendência é a reinvenção da imanência - de todos, em grupo, somos responsáveis. Fazer desporto nada tem a ver com adesão a dogmas, mas com a participação num acto criador". (p.35) 
O ato criador tem sim um sentido de competição, mas o objetivo deve ser algo que engloba a busca de superação do atleta, não no sentido do corpo-limite, mas da arete, que trata da vida da pessoa como um todo. Manuel Sérgio lembra a declaração de Mourinho quando chegou ao Chelsea: "A partir de agora, cada exercício, cada jogo, cada minuto de nossa vida tem de centra-se no objectivo de ser campeão" (p.35). A criação deste sentido comum de trancendência e superação na busca dos melhores resultados seriam tarefa do treinador, assim como, a determinação de táticas e técnicas para alcançar este resultado. Para tanto a repetição de exercícios descontextualizados não tem o menor sentido, para o pensador português, A partir de agora, cada exercício, cada jogo, cada minuto de nossa vida tem de centra-se no objectivo de ser campeão""salvo melhor opinião, no treino, o nadador deve principalmente nadar, o corredor deve principalmente correr, o basquetebolista deve principalmente jogar basquetebol, etc. Não esqueço que, no futebol, também se corre sem bola, mas com sentido que a estratégia e a táctica determinam"(p.75).
Além dos fatores técnicos e táticos, o futebol teria uma dimensão poética onde a capacidade criativa de jogadores geniais se torna indispensável: "Quando se diz que Johan Cruyff é o filósofo do Barcelona, tal significa que a equipa "azulgrana" de Pep Guardiola e de Xavi, Iniesta e Messi se fundamenta nos princípios que permitiriam o "futebol total" holandês da década de setenta, que saudava em Rinus Michels o seu orientador e em Cruyff o intérprete genial" (p.23) Este sentido de "filosofia de jogo", se traduz em uma cultura que parece mesmo influenciar no jeito de cada time sem sentido mesmo básico: basta pensar na diferença das equipes de base do São Paulo, onde na maioria das vezes a questão do porte físico é um pressuposto para seleção; e do Santos, onde o privilégio da técnica fomenta a aposta em biótipos que divergem dos padrões pressupostos. Na visão de Manuel Sérgio a presença do craque gera um elemento indispensável para o sucesso de uma formação tática: "um pensamento táctico, qualquer que ele seja, precisa de um jogador de excepção que verdadeiramente o interprete" (p.23). Neste ponto, penso que no Brasil não valorizamos tanto o jogador tático, que organiza o jogo e interpreta a tática do técnico; preferimos o jogador que desfaz a tática, individualista que valoriza mais a bola nos pés do que o posicionamento dentro de um esquema. 
A capacidade do treinador de gerar entusiasmo, de acender a fagulha que inspira a transcendência, se ligaria ao fomento da vontade, uma fé pragmática (que gera ação) no sentido de auto-aperfeiçoamento. Manuel Sérgio não deixa de citar a transformação do esporte em negócio e os problemas derivados disso; no entanto seu discurso se alimenta de certo romantismo que aponta para outra possibilidade na forma de lidar com este jogo. Uma perspectiva que é sim poética e romântica, mas que tem sua dimensão prática e pragmática: os resultados alcançados por José Mourinho são testemunho disso .