Há duas madrugadas terminei a leitura de Baudelaire e Freud (DIFEL, Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho,1979) de Leo Bersani.Não vou escrever sobre este livro porque não domino o jogo da psicanálise, então minha leitura parece que sempre fica inacabada. Faltam pressupostos de pressupostos de pressupostos... O silêncio nesse meu caso deve dizer alguma coisa.
Mas vamos lá. O melhor do livro é o último capítulo onde o autor trata de certo conflito entre o moi créateur (o vagabundo, o ator, o palhaço e o artista participam desta categoria) e o moi social (que incluiria o dândi, o príncipe, o narrador espectador imparcial etc). O motivo da minha leitura também está neste capítulo, num pequeno trecho citado por Richard Rorty em Contingência, Ironia e Solidariedade: "A teoria psicanálitica tornou a noção de fantasia tão profundamente problemática que não deveríamos mais considerar como certa a distinção entre a arte e a vida, ou julgarmos que a palavra "criativa" não tenha o mínimo valor análitico" (p.112). (Este último período - "ou julgarmos..."- foi omitido por Rorty.) Somando esta descrição a desenvolvida por Philiph Rieff do inconciente como a privatização do gênio romântico e estamos com a "base" de uma estética e de uma moral emergente.
Chamou-me muito a atenção um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire chamado "Matemos os pobres!" que justificaria a aproximação do principe-dândi de Baudelaire de um herói nietzschiano.
Coloco este texto de Baudelaire num outro post.
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
Sobre "Baudelaire e Freud" de Leo Bersani
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Freud: pensamento e humanismo de Philip Rieff
RIEFF, Philip. Freud: pensamento e humanismo. Trad. Silvana Borin Mirachi. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.
Acabei de ler Freud: pensamento e humanismo (Freud: the mind of the moralist) de Philip Rieff. Ele traz uma leitura romântica de Freud que foi base para que Richard Rorty pudesse recontextualizar a psicanálise com a gnóstica Religião Americana. A chave para isto estaria nesse trecho muito citado: "A concepção romântica do inconsciente pode ter contribuído originalmente para a ideia antidemocrática de génio (Schelling), mas Freud democratizou o génio dando a todas as pessoas um inconsciente criativo" (p.56). A perspectiva terapêutica de Rieff o mote para que Rorty pudesse tentar combinar a descrição romântica de Freud com o melhorismo de Dewey. Harold Bloom seria pouco indulgente com essa possibilidade; questinando a existência de um inconsciente criativo em George Bush e lembrando da dimensão aristocrática da psicanálise.
A questão que emerge a partir do legado de Freud é o que a liberação provocada por sua popularização proporcionou de transformação em nossa própria neurose? Para alguns, como os que fizeram o documentário O século do self, a popularização da psicanálise e da busca de libertar e desenvolver as energias criativas do eu se vincularia ao desenvolvimento do capitalismo e a criação de necessidades por parte da publicidade. Rieff se mantém na perspectiva do indivíduo e não da "psicologia de massa" despersonalizada. Mas segue mantendo a questão sobre a abertura criativa proporcionada pelo legado de Freud e do conflito constante (e irreconcíliável) entre as demandas do individuo e da sociedade.
A questão que emerge a partir do legado de Freud é o que a liberação provocada por sua popularização proporcionou de transformação em nossa própria neurose? Para alguns, como os que fizeram o documentário O século do self, a popularização da psicanálise e da busca de libertar e desenvolver as energias criativas do eu se vincularia ao desenvolvimento do capitalismo e a criação de necessidades por parte da publicidade. Rieff se mantém na perspectiva do indivíduo e não da "psicologia de massa" despersonalizada. Mas segue mantendo a questão sobre a abertura criativa proporcionada pelo legado de Freud e do conflito constante (e irreconcíliável) entre as demandas do individuo e da sociedade.
A parte essas disputas, o livro de Rieff, publicado em 1959, merece ser lido como ainda capaz de iluminar problemas que são cada vez mais urgentes. Acredito que A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperança em declínio escrito por Christopher Lasch em 1979 seja um bom contraponto a apropriação liberal-burguesa feita por Rorty.
P.S.: Não sei se continuo esse caminho de investigação lendo Lasch ou O triunfo da terapia também de Rieff. Os dois parecem interessantes.
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