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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sobre o tom de voz da filosofia



trecho de "anotação" em diálogo com o livro de Stanley Cavell Um tom de filosofia: exercícios autobiográficos:





Existe certa arrogância no tom de voz do filósofo; uma arrogância que se liga a pretensão de que aquilo que ele diz possui necessidade e validade universal. Como descreve Stanley Cavell, “a arrogância da filosofia se relaciona com sua ambivalência a respeito do autobiográfico”.
(Um exemplo desta ambivalência pode ser dramatizado nos ‘eventos’ filosóficos, em que, a principio, o autor da conferência ou comunicação, começa pronunciando algumas palavras diretamente para o público. De vez em quando, até mesmo, olhando para as pessoas a sua volta. Na maioria dos casos, o tom desta fala é autobiográfico, explicando o que levou a escolha do tópico que pesquisa. Em verdade, este ‘prelúdio’ muitas vezes se torna um balbucio sem grande coerência, já que, segundo o próprio “comunicador”, o que há de interessante e coerente para se disser se encontra no texto: então vamos à leitura! Abaixando a cabeça e começando esta tarefa recitativa, a voz do filósofo dá um “salto transcendental” e sua dicção ganha o tom de quem arroga dizer algo que tem por pressuposto a pretensão de universalidade. Ora, neste caso, somos instruídos a não utilizar a “primeira pessoa do singular”, mas, sim, a “primeira pessoa do plural”, somos “nós”. Esta escolha, ou melhor, esta necessidade de deslocamento supõe um tipo de “acordo metafísico” entre o “falante” e a “plateia”? Ou seria um indicativo da posição hamletiana do intelectual moderno, que ouve sua própria voz como “outro” e tenta se criar a partir deste diálogo, ou melhor, desta escrita? Esta segunda explicação ajuda a entender porque algumas leituras são intercaladas com falas, que, ou tentam explicar oferecendo algum exemplo em relação ao que foi escrito, ou mostra a empolgação do “leitor” com o que disse o “autor” e sua relevância, ou retomam o tom autobiográfico para pedir desculpas por alguma discordância, dificuldade ou reticência em relação ao que esta escrito; o que serve como confissão de que a voz ainda não atingiu o tom do que deve ser universalmente aceito, ou seja, não é ainda o da Filosofia).
É certo que os filósofos que negam a importância da dimensão autobiográfica encontram outro caminho para fundar a autoridade de sua voz, pelo a priori ou pela aplicação de um método ou pela lógica etc., justificam a necessidade e universalidade, assim como, a autoridade, densidade, profundidade, pressupostas na fala filosófica.
(Outra via, contextualmente mais utilizada, é pegar palavras emprestadas de uma – ou de algumas – autoridade autorizada estrangeira, ou quando muito, de um brasileiro – geralmente o orientador ou o orientador do orientador – que concorda com o que o estrangeiro disse, deixando a própria voz como um eco, um tipo de rima condenada por Platão por sua teatralidade, pela imitatividade, a aceitação inconteste de um simulacro. Mas, depois de Platão e de tantas palavras, haveria outra forma de falar que não a aceitação e multiplicação de ecos como rimas prosaicas e redundantes? Talvez, mas neste caso corre-se o risco de transformar o discurso crítico em discurso clínico. Quem quer, ou melhor, quem pode correr este risco (na Academia)? O contrário da arrogância da filosofia seria a cordialidade da desconversação, de uma fala sem rosto que condena como idiossincrática toda tentativa de ter voz?).

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Library



via @livroparavoar e http://ebooksgratis.com.br/

sábado, 28 de maio de 2011

As mulheres das tragédias gregas: poderosas? - Série Filosofia em Pílulas


Terminei de ler hoje o livro As mulheres das tragédias gregas: poderosas? da professora Susana de Castro. Como ela é minha orientadora e amiga, de certa forma, acompanhei algo da inquietação que gerou esse livro. As tragédias gregas para mim sempre foram um tema citado, mas nunca estudado. Um furo para qualquer formação filosófica, literária... humana. Ora, este livro pode servir como mote para alimentar a curiosidade de estudar este tema com mais cuidado. O mote de Susana, a posição das mulheres nas tragédias, é algo realmente instigante. Imagino o quanto ele pode ser empolgante para alunas do ensino médio, afinal, como ela mesma ensina, "Antígona é a representação da jovem rebelde que não se intimida diante da prepotência do velho soberano" (p.57).

Tenho um blog sobre filosofia em que posto questões de filosofia cobradas em vestibulares e também conteúdo que ajude alguém a tentar estudar sozinho. O blog tem uma boa visitação e não é de surpreender que o tema mais procurado é Mitologia, a relação entre mito e filosofia. Tenho duas hipóteses para explicar  isso, (1) a maioria das pessoas só tem acesso a uma redundante introdução a filosofia (como geralmente não há currículo, também não há continuidade e cada vez que o professor de filosofia muda volta-se à Grécia e a relação entre Mito e Filosofia - assim como, os professores de inglês tendem a retornar ao verbo "to be", numa revisão camufla a falta de progressão); a outra hipótese (2) é a de que o tema "Mito e Filosofia" é muito instigante, até mesmo pela ambiguidade e multiplicidade de questões que abarca. Ora, as tragédias poderiam ser utilizadas para desenvolver esse tipo de inquietação, com a vantagem de trazer junto não somente a matriz religiosa, mas sua encenação, questionamento e, ao mesmo tempo, repetição; já que a tensão entre humano e divino, destino e liberdade, pais e filhos, continuamente se apresenta como motivo de espanto. 

Para mim, ainda é espantoso saber que os autores dos livros que a gente lê, que a gente vê nas estantes, são pessoas de carne e osso. Para quem vêm de uma família com pouca formação escolar a descoberta deste tipo de autoria é uma novidade que gera sempre um impulso de também tentar se inventar como autor, de se aproximar mais deste universo, tomando o encanto dos autores como dotes de pessoas de carne e osso. Quando terminei a graduação em Filosofia voltei para Jataí desiludido quanto as possibilidade de crescimento e em dúvida quanto à minha própria capacidade. Fui para a sala de aula e me vi despreparado tanto por desconhecimento de muito do que seria a etiqueta das aulas para o ensino médio, quanto pela incorporação de um jargão filósofico distante da fala cotidiana (o que tornava a comunicação impossível). A filosofia também me pareceu impossível no ensino médio: meus professores me treinaram para o pro-fundo heideggeriano e neste fundo sem fundo postular que se ouve a voz do Ser é uma forma de surdez. Pois bem, aí o contato por email com o professor e escritor Marcos Bagno me reavivou a crença de que tudo poderia ser mais simples: ele, um autor consagrado respondia emails (e dialogava comigo!), tratava minhas interrogações como algo valioso (de repente, me dava uma aula socrática via Internet, pelo exemplo). Acho que isso, somado a sua visão wittgensteiniana da linguagem, me inspiraram a fazer uma terapia deste jargão e tentar também promover diálogos. Não sei se consegui e ainda tento aprender isso. A Susana neste caminho é outra pessoa que para mim tem essa aura socrática e servem de inspiração, enfim; ela é poderosa não por tentar encarnar o poder, mas por ter os ardis desta inquietação que não se intimida (ou se acomoda) com o autoritarismo conservador cotidano. Vi isso bem numa aula de estágio em que ela desenhou um quadro na lousa e chamou os alunos para preenchê-lo. Duvidei do resultado; achei que seriam somente aquelas mesmas figuras mais participativas e solidárias que iriam ajudar a preencher os itens que ressumiam tudo que havia sido estudado no semestre. De início foi isso mesmo, mas, aos poucos mais gente foi propondo formulações e participando. No fim, a turma toda havia mesmo feito daquele quadro um ótimo material didático, haviam se integrado na aula e com o tema. Essa cena me impressionou, já que a tendência do professor é "tomar" a palavra. Aprendi um bocado com isso, como se ali tivesse visto uma tragédia ao contrário, em que há essa integração mítica entre cada um como o todo, mas que tem um sentido democrático: que todo mundo seja Antígona também!       






As mulheres das tragédias gregas: poderosas? 
Série Filosofia em Pílulas

Descrição
A protagonismo das mulheres na maioria do dramas escritos na Grécia Antiga e que chegaram até os dias atuais é latente, e os títulos enunciam: As troianas, Electra, Medéia, As bacantes, Antígona, Eumênides... As tragédias, porém, foram escritas por homens, dirigidas por homens, encenadas por homens e, provavelmente, quem assistia à encenção das peças era o sexo masculino; afinal, a sociedade ateniense era androcêntrica. As mulheres eram consideradas “menores”, sem direitos políticos, sem direito à educação, à herança ou à propriedade. Então, qual era o poder das mulheres atenienses, que ocupavam papel central nesse gênero tão relevante da literatura grega? A filósofa Susana de Castro mergulhou em leituras e discussões a respeito do tema para analisar a importância das heroínas das tragédias gregas. Com texto leve, claro e rico em informações históricas e mitológicas, oferece ao leitor sua interpretação de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e seus grandes estudiosos Aristóteles, Hegel e Schelling, elucidando a seu modo os questionamentos despertados pelo título da obra. Público-alvo: estudantes de Filosofia e interessados em geral.

Sobre a autora:
Susana de Castro é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Filosofia pela UFRJ e doutora em Filosofia pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU). É professora adjunta II da Faculdade de Educação da UFRJ e membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Filosofia da mesma universidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O anseio e a deserção dos pastos da Filosofia

Acabei agora a leitura de Lavoura Arcaica de Raduan Nassar. Enfim! Continua para mim a curiosidade sobre a passagem de Raduan pela filosofia e sobre o seu irmão Raja Nassar, que também frequentava a filosofia e me parece que chegou a ser professor na USP. (Na verdade, segundo informação da Wikepédia, Raduan foi o sexto dos irmãos a frequentar o curso de Filosofia. Que anseio metafísico impulssionava esta busca familiar? Haveria alguma resposta?). Se muito se fala da desistência de Raduan da literatura é estranho que não se tente ao menos colocar em questão sua desistência da filosofia.  O texto da Wikepédia diz:

Concluído o curso de Filosofia, em 1963, no ano seguinte viaja para Lüneburg, interior da Alemanha Ocidental, a fim de estudar alemão. Através de cartas de amigos e de familiares, toma conhecimento do golpe militar de 31 de março. Comunica ao Departamento de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP sua decisão de não assumir a assistência da cadeira de Psicologia Educacional no campus de São José do Rio Preto daquela instituição. Ao mesmo tempo, abandona o curso de alemão e decide voltar para o Brasil. Antes disso vai ao Líbano e conhece a aldeia de seus pais.

Não seria um exagero pensar que toda resposta possível para essas questões estão já impressas em Um copo de cólera, mas, ainda assim... Vou ainda escrever algo sobre isso, ao menos para dar mais textura a este silêncio, maculá-lo.
Penso ler agora Menina a caminho, e deixo aqui um Livroclip que apresenta a trajetória de Raduan e apresenta Menina a caminho.


Uma ciência para antecipar e bloquear a ação de hereges acadêmicos


“– Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
 – Mas que certamente infligirão – afirmou Witner com convicção.
.– Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta. Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes. E, de certa maneira, são inocentes.”
DICK, Philip K. Minority Report.   


Quando uma Utopia, minuciosamente escada em uma teoria, é colocada em ação, tende a se reificar como dogma, cerceando a liberdade individual em favor do “ideal coletivo”. Ora, após a Segunda Guerra Mundial tornou-se comum, na literatura e no cinema, narrativas que descrevem sociedades futuras onde ideais utópicos de organização social por meio da tecnologia se degeneram em governos repressivos e autoritários; tornam-se Distopias. O conto de Philiph K. Dick “Minority Report” é uma destas narrativas de ficção científica que dramatizam o conflito entre as demandas de coerção social e o espaço de autodeterminação individual. Descreve uma sociedade futura que utiliza a ciência para antecipar ações violentas e prender seus “praticantes” antes mesmo que ele tivesse possibilidade de cometer qualquer delito. Tal ciência está longe de ser possível, mas o conto de Dick nos ajuda a imaginar situações e contextos mais restritos onde o mesmo discurso de “ataque preventivo” – fundado em uma metafísica absoluta – é utilizado para manter a estabilidade de uma determinada sociedade. 
Podemos imaginar que se houvesse mesmo uma ciência capaz de predizer com exatidão o tipo de escolhas intelectuais que cada um estaria inclinada a tomar em sua trajetória acadêmica, esta seria utilizada em processos seletivos para desqualificar os candidatos perigosamente subversivos. De qualquer forma, tal “ato preventivo” livraria a Academia de seres anômalos, que nas bancas de concurso escondem suas tendências desviantes em relação à auto-imagem paradigmática de sua disciplina.
Ora, tal ciência preditiva ainda não existe, no entanto, acena explicitamente em situações que são presságio para está visão de Distopia de uma Universidade futura com uma elite reificada que compartilha a fé em um mesmo dogma metodológico. Tal ideia pode não parecer tão negativa, já que descreve uma perspectiva que normalmente é aplicável aos padrões de racionalidade, apostando a estabilidade como platonicamente pressuposta na República de Platão, onde todos os esforços se direcionam contra a perversão da ordem.
Caricaturas positivistas deste ideal de cientificidade acabam sendo parte do cotidiano do jogo acadêmico na busca por profissionalização e certeza. Podemos dizer isto também do sistema de “revisão por pares” nas revistas científicas? Não estariam mais propensos a ser aprovados projetos de pesquisa onde os resultados já são pressupostos? Não estaria acenando aí os perigos de uma “metafísica absoluta” que impossibilita a inovação?

Randall Collins e a "luta de gigantes" pelo espaço de atenção



Os filósofos que postulavam tratar de verdades eternas também acreditavam que sua forma de pensamento seria independente de fatores culturais, sociais ou económicos. Contra essa pretensão é comum que os sociólogos construam narrativas em que demonstram a correlação entre determinadas posições sócio-económicas e o conjunto de ideias que ela potencializa. Mais do que isso, sociólogos das ideias trataram de percorrer a história da filosofia mostrando como a busca por reconhecimento dentro da hierarquia da “comunidade de filósofos” promoveria escolhas e mudanças conceituais. É isso o que Randall Collins faz em seu enorme e importante The Sociology of Philosophies:a global theory of intelectuall change. O autor procura demonstrar que é a busca por ampliação do espaço de atenção (“attention-space”), por reconhecimento dentro da comunidade de filósofos (para se posicionar como líder ou como membro de um grupo), é o que motivaria alguém a engajar-se seriamente na defesa de diferentes argumentos.[1]
Por exemplo, para Randall Collins o idealismo alemão seria uma contraparte do processo de revolução académica, afastando a universidade do domínio da Igreja e instituindo a autonomia dos pesquisadores para definir os seu próprios caminhos, tendo poder para assumir todas as esferas da vida intelectual.[2] O idealismo alemão teria se espalhado por diversos países (Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Suécia etc.) acompanhando a importação do modelo de secularização da Universidade alemã. Além disso, os antigos anseios intelectuais concentrados no campo da Filosofia foram desmembrados pelo crescente processo de especialização académica. Tal especialização influenciou também a forma como a Filosofia se desenvolveu desde então, dialogando com outras áreas do conhecimento de modo a ampliar o seu próprio espaço de atenção.
Segundo Collins, a essência da criatividade filosófica não estaria relacionada a existência de génios individuais, mas, sim, as reordenações dos espaços de conversação que só permitem que um pequeno número de filósofos ocupem o centro do palco filosófico. (p.90). O autor fala da lei do pequeno número (law of small numbers) segundo a qual o número de centros de convergência de conversação varia entre três e seis autores, que se destacariam na disputa pelo limitado espaço de atenção. (resenha de Gross p. 836). Para ocupar um destes lugares centrais não basta que este esteja vago, nem a posse de imenso capital intelectual: seria necessário impressionar figuras proeminentes desta rede de conversação, articulando crenças comuns a esta elite em um mesmo pano de fundo. Para ser protagonista no teatro filosófico seria imprescindível a autorização de outras grandes figuras da trama; conhecer os pressupostos deste palco comum e, assim, se posicionar no centro dos debates de seu tempo. 
É nessa direção que Collins explica o contraste entre o sucesso de Hegel e (relativo) fracasso de Schopenhauer. O primeiro estaria mais familiarizado com o universo académico e teria capturado grande atenção ao se aproximar da historiografia, movimento que esteve na primeira onda da constituição das disciplinas académicas; também a seu favor, Hegel teria o fato de que existiam diversas tendências filosóficas ocupando espaço no palco filosófico quando ele apareceu se colocando no centro, articulando-as e, deste modo, produzindo sua própria ascensão. Schopenhauer, embora tivesse uma ótima teia de relações, teria aparecido muito tarde e mantinha uma visão que não dava valor a História, o que contrariava o impulso reformista alinhado com a formação de disciplinas ligadas aos estudos históricos e sociais. Hegel teria sido energizado pelo espaço de atenção que conquistou, já Schopenhauer, ante a pouca atenção teria perdido energia emocional, declinando em direção a neurose; o que o fez desistir precocemente de dar aulas. Para Collins os dois autores produziram obras criativas, porém o que justifica a maior atenção que Hegel conseguiu são mais razões estratégicas do que alguma forma de mérito filosófico.[3]


[1] COLLINS, Randal. The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change. Cambridge, MA: Havard University Press, 1998.
[2] COLLINS, Randal. The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change. Cambridge, MA: Havard University Press, 1998. p.618.
[3] GROSS, Neil. “Review: Randall Collins, The Sociology of Philosophies: a Global Theory of Intellectual Change”. In: Theory and Society, vol.29. n.6. Dez., 2000. p.858-859.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Matemos os pobres!" um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire

MATEMOS OS POBRES!
Charles Baudelaire (de seus Pequenos poemas em prosa)

Fazia quinze dias que eu estava exilado no meu quarto, cercado de livros em voga na época, isto é, há dezesseis ou dezessete anos atrás. Refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos, em vinte e quatro horas. Eu digerira, ou melhor, engolira todas as elucubrações de todos esses empresários da felicidade pública, que aconselham os pobres a se tornarem escravos, e de todos os que procuram convencê-los de que são reis destronados. Não será de admirar que eu estivesse, então, num estado de espírito que se aproximava da vertigem ou da estupidez.
Confinado no fundo do meu intelecto, apenas sentia o gérmen obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de boa mulher, cujo dicionário eu acabara de percorrer. Mas, era simplesmente a ideia de uma ideia, alguma coisa de infinitamente vago.
Afinal, saí com uma grande sede. O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional do ar livre e dos refrescos.
Ao entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu, lançando-me um desses olhares inesquecíveis que seriam capazes de derrubar os tronos, se o espírito pudesse abalar a matéria e se os olhos de um magnetizador lograssem amadurecer as uvas.
Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar ao meu ouvido, uma voz que reconheci bem: era a voz de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda parte. Se Sócrates (1) tinha o seu bom Demônio, porque não teria eu o meu Anjo bom, e porque não teria a honra, como Sócrates, de obter o meu título de loucura, assinado pelo sutil Lelut (2) e pelo circunspecto Baillarger (3)?
Entre o Demônio de Sócrates e o meu, existe uma diferença: é que o de Sócrates só se manifestava para evitar, impedir, avisar, ao passo que o meu se digna aconselhar, sugerir, persuadir. O pobre Sócrates tinha apenas um demônio proibidor, e o meu é um grande afirmador, um Demônio de ação, ou de combate.
Mas, aquela voz murmurava-me o seguinte: 
- Só é igual de outrem quem o prova, e só é digno de liberdade quem sabe conquistá-la.
Imediatamente, saltei sobre o mendigo. Com um único soco, tapei-lhe um olho, que ficou, num segundo, grande como uma bola. Parti uma unha quebrando-lhe os dentes e, como não me sentisse bastante forte, por ter nascido franzino e ser pouco exercitado no box, para liquidar rapidamente o velhote, peguei-o com uma das mãos pela gola do casaco e, com a outra, apertei-lhe a garganta e pus-me a sacudir vigorosamente a cabeça contra um muro. Devo confessar que tomara a preocupação de inspecionar os arredores com um
rápido olhar e que verificara que, naquele arrabalde deserto, estaria muito tempo fora do alcance de algum agente de polícia.
Depois, com um pontapé nas costas, bastante violento para quebrar-lhe as omoplatas, joguei por terra o enfraquecido sexagenário e, empunhando um grosso galho de árvore que estava no chão, bati-lhe com a energia dos cozinheiros, quando querem amolecer um bife.
De repente, - oh milagre! Oh satisfação do filósofo que verifica a excelência de sua teoria! - vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com uma energia que eu jamais teria suspeitado numa máquina tão singularmente desarranjada. E, com um olhar de ódio que me pareceu de bom augúrio, o decrépito vagabundo atirou-se sobre mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, me bateu até mais não poder. Com minha enérgica medicação, eu lhe dera o orgulho e a vida.
Esforcei-me, então, por lhe fazer compreender que considerava a discussão acabada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico (4), disse-lhe o seguinte:
- Cavalheiro, o sr. é meu igual! Queira dar-me a honra de partilhar comigo a minha bolsa. E, se é realmente filantropo, lembre-se de que é preciso aplicar a todos os seus confrades, quando lhe pedirem uma esmola, a teoria que eu tive o pesar de pôr à prova em suas costas.
Ele jurou que tinha compreendido minha teoria e que obedeceria ao meu conselho.

(1) Ilustre filósofo grego, cuja doutrina foi exposta por Platão.
(2) LELUT (1804-1877), famoso psiquiatra, autor da obra Do Demônio de Sócrates.
(3) BAILLARGER (1806-1891), célebre alienista, autor de um Ensaio de Classificação dos
Doentes Mentais.
(4) Seita filosófica dos estóicos, cujo chefe, Zenão, ensinava debaixo de um pórtico de Atenas.

Sobre "Baudelaire e Freud" de Leo Bersani

Há duas madrugadas terminei a leitura de Baudelaire e Freud  (DIFEL, Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho,1979) de Leo Bersani.Não vou escrever sobre este livro porque não domino o jogo da psicanálise, então minha leitura parece que sempre fica inacabada. Faltam pressupostos de pressupostos de pressupostos... O silêncio nesse meu caso deve dizer alguma coisa.
Mas vamos lá. O melhor do livro é o último capítulo onde o autor trata de certo conflito entre o moi créateur (o vagabundo, o ator, o palhaço e o artista participam desta categoria) e o moi social (que incluiria o dândi, o príncipe, o narrador espectador imparcial etc). O motivo da minha leitura também está neste capítulo, num pequeno trecho citado por Richard Rorty em Contingência, Ironia e Solidariedade: "A teoria psicanálitica tornou a noção de fantasia tão profundamente problemática que não deveríamos mais considerar como certa a distinção entre a arte e a vida, ou julgarmos que a palavra "criativa" não tenha o mínimo valor análitico" (p.112). (Este último período - "ou julgarmos..."- foi omitido por Rorty.) Somando esta descrição a desenvolvida por Philiph Rieff do inconciente como a privatização do gênio romântico e estamos com a "base" de uma estética e de uma moral emergente.
Chamou-me muito a atenção um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire chamado "Matemos os pobres!" que justificaria a aproximação do principe-dândi de Baudelaire de um herói nietzschiano.
Coloco este texto de Baudelaire num outro post.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Merci - peça de Daniel Pennac

A atriz Ana Barroso é a intérprete da peça Merci de Daniel Pennac

Quais devem ser os direitos de quem vai assistir a uma peça de teatro? Vamos consentir que você já comprou o ingresso; a partir disso é necessário alguma preparação especial? Os panfletos dão algumas informações e no caso da peça Merci de Daniel Pennac me dei o direito de não saber nada sobre o autor. Depois é que me contaram de seu decálogo dos direitos do leitor, de seu livro Como um Romance, de seu trabalho como pedagogo... Confesso que não o conhecia e ainda não o conheço, mas sei que escreve muito bem e tem aquele mal humor rabugento de quem não faz concessões ao lugar-comum, a vivência sem experiência (como diriam outros). 
Pois bem, a peça está em cartaz no Centro de cultura da Justiça federal no Rio de Janeiro. O título Merci traz o mote do monólogo: quando um autor recebe um prêmio por suas obras completas como deve agradecer, a quem deve agradecer, o que significa esta honraria e os lugares-comuns desta canonização... a peça examina este género de discurso na medida que constrói um discurso deste tipo nos fazendo rir da série da má-fé e do absurdo desta encenação da entronação de um autor. Até que ponto esta seria também uma forma de domesticá-lo? Mas, como agradecer (ou não agradecer) então? Qual evento ou quem colocar no centro desta forma metafísica de ficção auto biográfica?
Fiquei com a impressão de que o autor não encontraria nenhuma resposta e que destilava apenas um ressentimento crítico que poderia servir para apenas "renovar o género". A solução de Pennac foi "pedagógica", apontando para a função da literatura e os terrores de uma educação que não cuida e desenvolve a integração, mas faz gravitar na periferia as diferenças, reproduzindo os vícios de uma sociedade que não queremos no futuro. Fiquei pensando  no dia em que alguém agradecera aos que na escola lhe amedrontavam, na medida em que assim, criou força para se inventar e manter sua diferença, o que chamam de sensibilidade. Será preciso reproduzir este jogo de autoritarismo sádico? Esta pergunta vêm me incomodando mais e mais a medida em que volta e meia rememoro minhas aulas (assistidas e ministradas) e percebo a dificuldade em perceber a repetição deste tipo de lugar-comum autoritário. Perceber isso já ajuda a mudar. 

P.S.: Bem... a peça funcionou sem este saber prévio sobre o autor. Mas estariam nos direitos do espectador a possibilidade de que, em casos involuntários (como sempre o são), em que seu estomago emitisse ruídos estranhos (urros que fazem pensar no nascimento de algum novo Alien) contar com a indiferença paisagística do espectador ao seu lado? Lógico, cabe ressaltar que não se trata de nenhum evento que envolva emissão de algum tipo de poluente, mas simplesmente de sons estranhos vindo de seu estômago. Seria este um direito alienável do espectador: contar com a indiferença solidária de quem está o seu lado e compartilha este som? Penso que este deve ser um direito básico! E no caso da pessoa ao seu lado ser sua namorada? A situação muda de instância do Fórum dos Direitos dos Espectadores para o Forum dos Direitos dos casais de rirem das gafes mútuas? Defendo que não deveria haver está transferência de instância e espero que rememorando a cena do nascimento do Alien possa promover uma indiferença cautelosa ao menos: vai que é o nascimento de uma coisa assim!  



domingo, 10 de abril de 2011

Poesia - um filme deste cânone acidental

Assisti semana passada este delicado filme coerano. Ganhador em Cannes do prêmio de melhor roteiro o filme tem também como destaquea ótima atuação da atriz Yoon Hee-jeong, que interpreta uma avó afetada pelo Alzheimer que busca na poesia uma forma de redenção para seus inúmeros problemas. Entre o cultivo da palavra e seus esquecimento, entre a iminência da morte e a violência inumana; o filme trata tambémd a posição da mulher numa sociedade em que as diferenças de gênero são profundas.
Não quero fazer uma resenha, um resumo aqui. Cabe manter o convite para aquelas pessoas que não gostam de assistir nada que as tire o chão e produza transformação... vale se inspirar nesta poesia para que procuremos a nossa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

HQ: Mariposa, de Marcatti

Hoje li Mariposa. Uma HQ de um autor que não conhecia, Marcatti. Na verdade minhas leituras de quadrinhos são esparsas, mas estou criando um hábito de vez por outra ler uma ou outra obra. 
No caso a leitura vale muito a pena. O texto de Marcatti é muito bom e auto-irônico, parodia uma voz existencialista em off que, na maioria das vezes, romanceia uma realidade crua que o leitor "vê" nos quadrinhos. Esse jogo é muito interessante. Não é por acaso que essa sua obra foi premiada.
O padrão das relações que descreve é de parasitagem, que na narrativa gera surpreendentes harmonias entre velhas prostitutas que se tornam esposas, envelhecendo seu marido; e jovens esposas que traem seus maridos, rejuvelescendo seu amante. O fantástico da narrativa é cético e faz o leitor voutar para a apresentação inicial dos livro, que com palavras medidas nos apresenta a matriz desse universo.

sábado, 2 de abril de 2011

"a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado"


O último livro que li (de cabo a rabo) foi Fogo Pálido de Nabokov. O livro de início me pareceu cansativo. Me disseram; "é que você está se acostumando a prosa de língua inglesa, com suas sentenças curtas e ritmo mais rápido". Deve ser isso. Mas fui até o fim da leitura e a verdade é que Nabokov me derrubou. O livro é muito, muito bom! Meu estranhamento inicial era necessário para que ele pudesse produzir o seu efeito poético. 
Numa edição americana a introdução do livro é escrita por Richard Rorty, filósofo que é tema e problema das minhas insónias atuais. Rorty também fala sobre este livro no texto que escreve sobre Lolita em Contingência Ironia e Solidariedade.O encanto de Rorty talvez se sintetize no verso "a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado". Para Rorty somos este poema inacabado. Seria a partir desse verso que se estende o livro de Nabokov. Mais não digo. Vale a leitura. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

BBC: O século do self


Descrição: Documentário da BBC sobre como aqueles no poder usaram as teorias freudianas para controlar multidões perigosas numa era da democracia de massas. Legenda traduzida para português.
São 13 vídeos.Duração total: 2 horas, 18 minutos
 
Devo crédito para Janos Biro pela indicação.

Freud: pensamento e humanismo de Philip Rieff

RIEFF, Philip. Freud: pensamento e humanismo. Trad. Silvana Borin Mirachi. Belo Horizonte: Interlivros, 1979. 

Acabei de ler Freud: pensamento e humanismo (Freud: the mind of the moralist) de Philip Rieff. Ele traz uma leitura romântica de Freud que foi base para que Richard Rorty pudesse recontextualizar a psicanálise com a gnóstica Religião Americana. A chave para isto estaria nesse trecho muito citado: "A concepção romântica do inconsciente pode ter contribuído originalmente para a ideia antidemocrática de génio (Schelling), mas Freud democratizou o génio dando a todas as pessoas um inconsciente criativo" (p.56). A perspectiva terapêutica de Rieff o mote para que Rorty pudesse tentar combinar a descrição romântica de Freud com o melhorismo de Dewey. Harold Bloom seria pouco indulgente com essa possibilidade; questinando a existência de um inconsciente criativo em George Bush e lembrando da dimensão aristocrática da psicanálise.
A questão que emerge a partir do legado de Freud é o que a liberação provocada por sua popularização proporcionou de transformação em nossa própria neurose? Para alguns, como os que fizeram o documentário O século do self, a popularização da psicanálise e da busca de libertar e desenvolver as energias criativas do eu se vincularia ao desenvolvimento do capitalismo e a criação de necessidades por parte da publicidade. Rieff se mantém na perspectiva do indivíduo e não da "psicologia de massa" despersonalizada. Mas segue mantendo a questão sobre a abertura criativa proporcionada pelo legado de Freud e do conflito constante (e irreconcíliável) entre as demandas do individuo e da sociedade.
A parte essas disputas, o livro de Rieff, publicado em 1959, merece ser lido como ainda capaz de iluminar problemas que são cada vez mais urgentes. Acredito que A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperança em declínio escrito por Christopher Lasch em 1979 seja um bom contraponto a apropriação liberal-burguesa feita por Rorty.

P.S.: Não sei se continuo esse caminho de investigação lendo Lasch ou O triunfo da terapia também de Rieff. Os dois parecem interessantes.  

Mourinho filósofo humanista!? Mourinho dá um murro na mesa e diz que vai ser campeão! (E foi, então com o Porto da Copa dos Campeões!)

Juca Entrevista com Manuel Sérgio

parte 1

parte 2

parte 3

A filosofia do Futebol de Manuel Sérgio (e José Mourinho)


Sérgio, Manuel. Filosofia do Futebol. Primebooks:, Lisboa, 2009. pp.143.

O técnico português José Mourinho tem Manuel Sérgio como Mestre (Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Mourinho_Madrid.jpg)

 
A palavra filosofia volta e meia aparece na cronica esportiva. Geralmente isso acontece quando um time troca de técnico e o novo “professor” promete implementar uma nova “filosofia de jogo”, "filosofia de trabalho", “filosofia táctica” etc. O livro de Manuel Sérgio Filosofia do Futebol promete dar um sentido mais claro para tantos usos da palavra filosofia nestes contextos. A justificativa de tal promessa estaria no fato de que o português José Mourinho, hoje treinador do Real Madrid e campeão nos diversos clubes por onde passou, teria se inspirado na lições de filosofia de Manuel Sérgio, a quem toma com um mestre. A curiosidade para entender como se daria essa “inspiração” e quais seriam as lições do autor português, me fizeram encomendar o livro.
Apesar de uma bonita capa a edição é extremamente descuidada. Falta revisão (o uso excessivo de negrito é injustificado e desagradável, as referências bibliográficas são colocadas de forma  incomoda, no decorrer do texto, por vezes,com troca de nomes - como o jogador "Daniel Messi", a filósofa "Madalena Chauí"; erros de digitação e diagramação etc.). Resumindo minhas ressalvas: a impressão é de que o livro surgiu de uma apostila cheia de apontamentos sem revisão, aonde, na maioria das vezes, a conexão entre reflexões epistemológicas e o futebol não é de forma nenhuma evidente (ou existente!). A parte a tentativa de validar suas reflexões a partir da "visão privilegiada" autorizada pela perspectiva (mística) da complexidade de Edgar Morin, podemos encontrar em Manuel Sérgio alguns motes interessantes para reflexão. 
Manuel Sérgio se apresenta como fundador de uma ciência, a Ciência da Motricidade Humana (CMH). Não deixo de ter alguma desconfiança quando alguém com formação filosófica funda uma ciência , assim como quando funda uma seita, mas nesse caso a afirmação de Manuel Sérgio para mim se traduz na promoção de um questionamento fundamental sobre a educação física e toda a ideia de preparação física. Se isso implica na criação de uma "ciência" não tenho condições de saber (e nisso tenho pouco interesse). Manuel Sérgio vincula todo trabalho de "educação física" a uma pergunta anterior e utópica:" Que tipo de homem quero eu que nasça do treino, ou da competição, que vou dirigir?" (p.47). Neste sentido, a atividade física deve ser pensada como parte de uma formação humana que busca a transcendência, o aprimoramento de cada atléta como ser humano. Neste sentido, "para saber de futebol é preciso saber mais do que futebol", assim podemos trazer para esta atividade um sentido moral e politicamente emancipatório. 
O sentido dessa afirmação iluminista, sobre a necessidade de uma dimensão emancipatória humanística no cultivo dos esportistas pode ser exemplificada por diversos exemplos de atletas com grande potencial mas sem a formação cultural necessária para lidar com as vitórias (e as derrotas) o sucesso, a fama, o fracasso, o esquecimento etc. Manuel Sérgio afirma: "O que são David Bechkam, o Fernando Torres, o David Villa, o Messi, o Kaká, o Franck Ribéry, o Eto'o, o Ibrahimovic, o Cristiano Ronaldo, etc., etc.? Com toda a certeza, novos deuses! Mas não foram eles que nos criaram à sua imagem e semelhança. Fomos nós que os criamos à nossa imagem e semelhança. Nós precisamos de exemplos de transcendência, para tomarmos a consciência de que podemos não ser "objectos" da história, mas "sujeitos" construtores da história" (p.76).
Quando o técnico Mourinho aceitou a saída de Adriano da Inter de Milão sem impor maiores dificuldades, destacou que estava pensando na recuperação do ser humano e que este era o mais importante. Quando Adriano chegou ao Brasil disse que abandonaria o futebol, que não se sentia mais em condições de continuar. Pouco tempo depois acertou contrato com o Flamengo, onde foi artilheiro e campeão. brasileiro . De volta a Roma hoje, em uma entrevista explicou : "Não menti a Moratti [presidente do Inter], não me zanguei com ninguém. Mas não aguentava mais. Mourinho tinha consciência disso. Sentia-me sozinho, sem família, sem motivos para sorrir. Pensei até em deixar de jogar, mas agora estou bem», acrescentou o avançado que reconheceu ter passado por uma depressão mas negou problemas de alcoolismo" (no site português Mais Futebol).
 Porém, por sua dificuldade em seguir as rotinas de treinos e atividades que fazem parte da rotina de um jogador profissional, acabou sendo descartado da lista de Dunga para a Copa de 2010. e agora novamente tem problemas na Roma. É certo que a indisciplina de Adriano e sua falta de compromisso como atleta justificam a escolha de Dunga, mas também é evidente que nenhum outro atacante tinha o mesmo potencial deste que foi chamado de Imperador. Mas, para que treinador da seleção pudesse contar com este jogador seria necessário que ele, Dunga, também tivesse uma formação humana abrangente que o permitisse ajudar na emancipação de Adriano. Isso não significa de forma alguma o atalho moralista de fundamentalismos religiosos que estão "na moda" na fala de diversos treinadores de futebol hoje. Sérgio diria que é necessário que saibam filosofia! Defende ele mesmo a presença de um filósofo na comissão técnica dos times de futebol.  
Pessoalmente sou cético quanto aos "poderes" clínicos da filosofia, mas parece ser evidente que uma formação humanística mais ampla é hoje uma necessidade no esporte. Se nossos símbolos de transcendência hoje são os jogadores, se são eles nossos heróis, então é necessário que estes não sejam meros produtos, corpos sem linguagem. O sentido de nossa arete (virtude, excelência) parece estar aí em jogo também, "queremos uma sociedade de guerreiros espartanos fundamentalistas?", "queremos uma sociedade de adultos que nunca amadurecem?". Como sublinha Manuel Sérgio "A transcendência é a reinvenção da imanência - de todos, em grupo, somos responsáveis. Fazer desporto nada tem a ver com adesão a dogmas, mas com a participação num acto criador". (p.35) 
O ato criador tem sim um sentido de competição, mas o objetivo deve ser algo que engloba a busca de superação do atleta, não no sentido do corpo-limite, mas da arete, que trata da vida da pessoa como um todo. Manuel Sérgio lembra a declaração de Mourinho quando chegou ao Chelsea: "A partir de agora, cada exercício, cada jogo, cada minuto de nossa vida tem de centra-se no objectivo de ser campeão" (p.35). A criação deste sentido comum de trancendência e superação na busca dos melhores resultados seriam tarefa do treinador, assim como, a determinação de táticas e técnicas para alcançar este resultado. Para tanto a repetição de exercícios descontextualizados não tem o menor sentido, para o pensador português, A partir de agora, cada exercício, cada jogo, cada minuto de nossa vida tem de centra-se no objectivo de ser campeão""salvo melhor opinião, no treino, o nadador deve principalmente nadar, o corredor deve principalmente correr, o basquetebolista deve principalmente jogar basquetebol, etc. Não esqueço que, no futebol, também se corre sem bola, mas com sentido que a estratégia e a táctica determinam"(p.75).
Além dos fatores técnicos e táticos, o futebol teria uma dimensão poética onde a capacidade criativa de jogadores geniais se torna indispensável: "Quando se diz que Johan Cruyff é o filósofo do Barcelona, tal significa que a equipa "azulgrana" de Pep Guardiola e de Xavi, Iniesta e Messi se fundamenta nos princípios que permitiriam o "futebol total" holandês da década de setenta, que saudava em Rinus Michels o seu orientador e em Cruyff o intérprete genial" (p.23) Este sentido de "filosofia de jogo", se traduz em uma cultura que parece mesmo influenciar no jeito de cada time sem sentido mesmo básico: basta pensar na diferença das equipes de base do São Paulo, onde na maioria das vezes a questão do porte físico é um pressuposto para seleção; e do Santos, onde o privilégio da técnica fomenta a aposta em biótipos que divergem dos padrões pressupostos. Na visão de Manuel Sérgio a presença do craque gera um elemento indispensável para o sucesso de uma formação tática: "um pensamento táctico, qualquer que ele seja, precisa de um jogador de excepção que verdadeiramente o interprete" (p.23). Neste ponto, penso que no Brasil não valorizamos tanto o jogador tático, que organiza o jogo e interpreta a tática do técnico; preferimos o jogador que desfaz a tática, individualista que valoriza mais a bola nos pés do que o posicionamento dentro de um esquema. 
A capacidade do treinador de gerar entusiasmo, de acender a fagulha que inspira a transcendência, se ligaria ao fomento da vontade, uma fé pragmática (que gera ação) no sentido de auto-aperfeiçoamento. Manuel Sérgio não deixa de citar a transformação do esporte em negócio e os problemas derivados disso; no entanto seu discurso se alimenta de certo romantismo que aponta para outra possibilidade na forma de lidar com este jogo. Uma perspectiva que é sim poética e romântica, mas que tem sua dimensão prática e pragmática: os resultados alcançados por José Mourinho são testemunho disso .