A atriz Ana Barroso é a intérprete da peça Merci de Daniel Pennac
Quais devem ser os direitos de quem vai assistir a uma peça de teatro? Vamos consentir que você já comprou o ingresso; a partir disso é necessário alguma preparação especial? Os panfletos dão algumas informações e no caso da peça Merci de Daniel Pennac me dei o direito de não saber nada sobre o autor. Depois é que me contaram de seu decálogo dos direitos do leitor, de seu livro Como um Romance, de seu trabalho como pedagogo... Confesso que não o conhecia e ainda não o conheço, mas sei que escreve muito bem e tem aquele mal humor rabugento de quem não faz concessões ao lugar-comum, a vivência sem experiência (como diriam outros).
Pois bem, a peça está em cartaz no Centro de cultura da Justiça federal no Rio de Janeiro. O título Merci traz o mote do monólogo: quando um autor recebe um prêmio por suas obras completas como deve agradecer, a quem deve agradecer, o que significa esta honraria e os lugares-comuns desta canonização... a peça examina este género de discurso na medida que constrói um discurso deste tipo nos fazendo rir da série da má-fé e do absurdo desta encenação da entronação de um autor. Até que ponto esta seria também uma forma de domesticá-lo? Mas, como agradecer (ou não agradecer) então? Qual evento ou quem colocar no centro desta forma metafísica de ficção auto biográfica?
Fiquei com a impressão de que o autor não encontraria nenhuma resposta e que destilava apenas um ressentimento crítico que poderia servir para apenas "renovar o género". A solução de Pennac foi "pedagógica", apontando para a função da literatura e os terrores de uma educação que não cuida e desenvolve a integração, mas faz gravitar na periferia as diferenças, reproduzindo os vícios de uma sociedade que não queremos no futuro. Fiquei pensando no dia em que alguém agradecera aos que na escola lhe amedrontavam, na medida em que assim, criou força para se inventar e manter sua diferença, o que chamam de sensibilidade. Será preciso reproduzir este jogo de autoritarismo sádico? Esta pergunta vêm me incomodando mais e mais a medida em que volta e meia rememoro minhas aulas (assistidas e ministradas) e percebo a dificuldade em perceber a repetição deste tipo de lugar-comum autoritário. Perceber isso já ajuda a mudar.
P.S.: Bem... a peça funcionou sem este saber prévio sobre o autor. Mas estariam nos direitos do espectador a possibilidade de que, em casos involuntários (como sempre o são), em que seu estomago emitisse ruídos estranhos (urros que fazem pensar no nascimento de algum novo Alien) contar com a indiferença paisagística do espectador ao seu lado? Lógico, cabe ressaltar que não se trata de nenhum evento que envolva emissão de algum tipo de poluente, mas simplesmente de sons estranhos vindo de seu estômago. Seria este um direito alienável do espectador: contar com a indiferença solidária de quem está o seu lado e compartilha este som? Penso que este deve ser um direito básico! E no caso da pessoa ao seu lado ser sua namorada? A situação muda de instância do Fórum dos Direitos dos Espectadores para o Forum dos Direitos dos casais de rirem das gafes mútuas? Defendo que não deveria haver está transferência de instância e espero que rememorando a cena do nascimento do Alien possa promover uma indiferença cautelosa ao menos: vai que é o nascimento de uma coisa assim!


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