Terminei de ler hoje o livro As mulheres das tragédias gregas: poderosas? da professora Susana de Castro. Como ela é minha orientadora e amiga, de certa forma, acompanhei algo da inquietação que gerou esse livro. As tragédias gregas para mim sempre foram um tema citado, mas nunca estudado. Um furo para qualquer formação filosófica, literária... humana. Ora, este livro pode servir como mote para alimentar a curiosidade de estudar este tema com mais cuidado. O mote de Susana, a posição das mulheres nas tragédias, é algo realmente instigante. Imagino o quanto ele pode ser empolgante para alunas do ensino médio, afinal, como ela mesma ensina, "Antígona é a representação da jovem rebelde que não se intimida diante da prepotência do velho soberano" (p.57).
Tenho um blog sobre filosofia em que posto questões de filosofia cobradas em vestibulares e também conteúdo que ajude alguém a tentar estudar sozinho. O blog tem uma boa visitação e não é de surpreender que o tema mais procurado é Mitologia, a relação entre mito e filosofia. Tenho duas hipóteses para explicar isso, (1) a maioria das pessoas só tem acesso a uma redundante introdução a filosofia (como geralmente não há currículo, também não há continuidade e cada vez que o professor de filosofia muda volta-se à Grécia e a relação entre Mito e Filosofia - assim como, os professores de inglês tendem a retornar ao verbo "to be", numa revisão camufla a falta de progressão); a outra hipótese (2) é a de que o tema "Mito e Filosofia" é muito instigante, até mesmo pela ambiguidade e multiplicidade de questões que abarca. Ora, as tragédias poderiam ser utilizadas para desenvolver esse tipo de inquietação, com a vantagem de trazer junto não somente a matriz religiosa, mas sua encenação, questionamento e, ao mesmo tempo, repetição; já que a tensão entre humano e divino, destino e liberdade, pais e filhos, continuamente se apresenta como motivo de espanto.
Para mim, ainda é espantoso saber que os autores dos livros que a gente lê, que a gente vê nas estantes, são pessoas de carne e osso. Para quem vêm de uma família com pouca formação escolar a descoberta deste tipo de autoria é uma novidade que gera sempre um impulso de também tentar se inventar como autor, de se aproximar mais deste universo, tomando o encanto dos autores como dotes de pessoas de carne e osso. Quando terminei a graduação em Filosofia voltei para Jataí desiludido quanto as possibilidade de crescimento e em dúvida quanto à minha própria capacidade. Fui para a sala de aula e me vi despreparado tanto por desconhecimento de muito do que seria a etiqueta das aulas para o ensino médio, quanto pela incorporação de um jargão filósofico distante da fala cotidiana (o que tornava a comunicação impossível). A filosofia também me pareceu impossível no ensino médio: meus professores me treinaram para o pro-fundo heideggeriano e neste fundo sem fundo postular que se ouve a voz do Ser é uma forma de surdez. Pois bem, aí o contato por email com o professor e escritor Marcos Bagno me reavivou a crença de que tudo poderia ser mais simples: ele, um autor consagrado respondia emails (e dialogava comigo!), tratava minhas interrogações como algo valioso (de repente, me dava uma aula socrática via Internet, pelo exemplo). Acho que isso, somado a sua visão wittgensteiniana da linguagem, me inspiraram a fazer uma terapia deste jargão e tentar também promover diálogos. Não sei se consegui e ainda tento aprender isso. A Susana neste caminho é outra pessoa que para mim tem essa aura socrática e servem de inspiração, enfim; ela é poderosa não por tentar encarnar o poder, mas por ter os ardis desta inquietação que não se intimida (ou se acomoda) com o autoritarismo conservador cotidano. Vi isso bem numa aula de estágio em que ela desenhou um quadro na lousa e chamou os alunos para preenchê-lo. Duvidei do resultado; achei que seriam somente aquelas mesmas figuras mais participativas e solidárias que iriam ajudar a preencher os itens que ressumiam tudo que havia sido estudado no semestre. De início foi isso mesmo, mas, aos poucos mais gente foi propondo formulações e participando. No fim, a turma toda havia mesmo feito daquele quadro um ótimo material didático, haviam se integrado na aula e com o tema. Essa cena me impressionou, já que a tendência do professor é "tomar" a palavra. Aprendi um bocado com isso, como se ali tivesse visto uma tragédia ao contrário, em que há essa integração mítica entre cada um como o todo, mas que tem um sentido democrático: que todo mundo seja Antígona também!
As mulheres das tragédias gregas: poderosas?
Série Filosofia em Pílulas
Descrição
A protagonismo das mulheres na maioria do dramas escritos na Grécia Antiga e que chegaram até os dias atuais é latente, e os títulos enunciam: As troianas, Electra, Medéia, As bacantes, Antígona, Eumênides... As tragédias, porém, foram escritas por homens, dirigidas por homens, encenadas por homens e, provavelmente, quem assistia à encenção das peças era o sexo masculino; afinal, a sociedade ateniense era androcêntrica. As mulheres eram consideradas “menores”, sem direitos políticos, sem direito à educação, à herança ou à propriedade. Então, qual era o poder das mulheres atenienses, que ocupavam papel central nesse gênero tão relevante da literatura grega? A filósofa Susana de Castro mergulhou em leituras e discussões a respeito do tema para analisar a importância das heroínas das tragédias gregas. Com texto leve, claro e rico em informações históricas e mitológicas, oferece ao leitor sua interpretação de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e seus grandes estudiosos Aristóteles, Hegel e Schelling, elucidando a seu modo os questionamentos despertados pelo título da obra. Público-alvo: estudantes de Filosofia e interessados em geral.
Sobre a autora:
Susana de Castro é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Filosofia pela UFRJ e doutora em Filosofia pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU). É professora adjunta II da Faculdade de Educação da UFRJ e membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Filosofia da mesma universidade.
Descrição
A protagonismo das mulheres na maioria do dramas escritos na Grécia Antiga e que chegaram até os dias atuais é latente, e os títulos enunciam: As troianas, Electra, Medéia, As bacantes, Antígona, Eumênides... As tragédias, porém, foram escritas por homens, dirigidas por homens, encenadas por homens e, provavelmente, quem assistia à encenção das peças era o sexo masculino; afinal, a sociedade ateniense era androcêntrica. As mulheres eram consideradas “menores”, sem direitos políticos, sem direito à educação, à herança ou à propriedade. Então, qual era o poder das mulheres atenienses, que ocupavam papel central nesse gênero tão relevante da literatura grega? A filósofa Susana de Castro mergulhou em leituras e discussões a respeito do tema para analisar a importância das heroínas das tragédias gregas. Com texto leve, claro e rico em informações históricas e mitológicas, oferece ao leitor sua interpretação de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e seus grandes estudiosos Aristóteles, Hegel e Schelling, elucidando a seu modo os questionamentos despertados pelo título da obra. Público-alvo: estudantes de Filosofia e interessados em geral.
Sobre a autora:
Susana de Castro é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Filosofia pela UFRJ e doutora em Filosofia pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU). É professora adjunta II da Faculdade de Educação da UFRJ e membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Filosofia da mesma universidade.

