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sábado, 28 de maio de 2011

As mulheres das tragédias gregas: poderosas? - Série Filosofia em Pílulas


Terminei de ler hoje o livro As mulheres das tragédias gregas: poderosas? da professora Susana de Castro. Como ela é minha orientadora e amiga, de certa forma, acompanhei algo da inquietação que gerou esse livro. As tragédias gregas para mim sempre foram um tema citado, mas nunca estudado. Um furo para qualquer formação filosófica, literária... humana. Ora, este livro pode servir como mote para alimentar a curiosidade de estudar este tema com mais cuidado. O mote de Susana, a posição das mulheres nas tragédias, é algo realmente instigante. Imagino o quanto ele pode ser empolgante para alunas do ensino médio, afinal, como ela mesma ensina, "Antígona é a representação da jovem rebelde que não se intimida diante da prepotência do velho soberano" (p.57).

Tenho um blog sobre filosofia em que posto questões de filosofia cobradas em vestibulares e também conteúdo que ajude alguém a tentar estudar sozinho. O blog tem uma boa visitação e não é de surpreender que o tema mais procurado é Mitologia, a relação entre mito e filosofia. Tenho duas hipóteses para explicar  isso, (1) a maioria das pessoas só tem acesso a uma redundante introdução a filosofia (como geralmente não há currículo, também não há continuidade e cada vez que o professor de filosofia muda volta-se à Grécia e a relação entre Mito e Filosofia - assim como, os professores de inglês tendem a retornar ao verbo "to be", numa revisão camufla a falta de progressão); a outra hipótese (2) é a de que o tema "Mito e Filosofia" é muito instigante, até mesmo pela ambiguidade e multiplicidade de questões que abarca. Ora, as tragédias poderiam ser utilizadas para desenvolver esse tipo de inquietação, com a vantagem de trazer junto não somente a matriz religiosa, mas sua encenação, questionamento e, ao mesmo tempo, repetição; já que a tensão entre humano e divino, destino e liberdade, pais e filhos, continuamente se apresenta como motivo de espanto. 

Para mim, ainda é espantoso saber que os autores dos livros que a gente lê, que a gente vê nas estantes, são pessoas de carne e osso. Para quem vêm de uma família com pouca formação escolar a descoberta deste tipo de autoria é uma novidade que gera sempre um impulso de também tentar se inventar como autor, de se aproximar mais deste universo, tomando o encanto dos autores como dotes de pessoas de carne e osso. Quando terminei a graduação em Filosofia voltei para Jataí desiludido quanto as possibilidade de crescimento e em dúvida quanto à minha própria capacidade. Fui para a sala de aula e me vi despreparado tanto por desconhecimento de muito do que seria a etiqueta das aulas para o ensino médio, quanto pela incorporação de um jargão filósofico distante da fala cotidiana (o que tornava a comunicação impossível). A filosofia também me pareceu impossível no ensino médio: meus professores me treinaram para o pro-fundo heideggeriano e neste fundo sem fundo postular que se ouve a voz do Ser é uma forma de surdez. Pois bem, aí o contato por email com o professor e escritor Marcos Bagno me reavivou a crença de que tudo poderia ser mais simples: ele, um autor consagrado respondia emails (e dialogava comigo!), tratava minhas interrogações como algo valioso (de repente, me dava uma aula socrática via Internet, pelo exemplo). Acho que isso, somado a sua visão wittgensteiniana da linguagem, me inspiraram a fazer uma terapia deste jargão e tentar também promover diálogos. Não sei se consegui e ainda tento aprender isso. A Susana neste caminho é outra pessoa que para mim tem essa aura socrática e servem de inspiração, enfim; ela é poderosa não por tentar encarnar o poder, mas por ter os ardis desta inquietação que não se intimida (ou se acomoda) com o autoritarismo conservador cotidano. Vi isso bem numa aula de estágio em que ela desenhou um quadro na lousa e chamou os alunos para preenchê-lo. Duvidei do resultado; achei que seriam somente aquelas mesmas figuras mais participativas e solidárias que iriam ajudar a preencher os itens que ressumiam tudo que havia sido estudado no semestre. De início foi isso mesmo, mas, aos poucos mais gente foi propondo formulações e participando. No fim, a turma toda havia mesmo feito daquele quadro um ótimo material didático, haviam se integrado na aula e com o tema. Essa cena me impressionou, já que a tendência do professor é "tomar" a palavra. Aprendi um bocado com isso, como se ali tivesse visto uma tragédia ao contrário, em que há essa integração mítica entre cada um como o todo, mas que tem um sentido democrático: que todo mundo seja Antígona também!       






As mulheres das tragédias gregas: poderosas? 
Série Filosofia em Pílulas

Descrição
A protagonismo das mulheres na maioria do dramas escritos na Grécia Antiga e que chegaram até os dias atuais é latente, e os títulos enunciam: As troianas, Electra, Medéia, As bacantes, Antígona, Eumênides... As tragédias, porém, foram escritas por homens, dirigidas por homens, encenadas por homens e, provavelmente, quem assistia à encenção das peças era o sexo masculino; afinal, a sociedade ateniense era androcêntrica. As mulheres eram consideradas “menores”, sem direitos políticos, sem direito à educação, à herança ou à propriedade. Então, qual era o poder das mulheres atenienses, que ocupavam papel central nesse gênero tão relevante da literatura grega? A filósofa Susana de Castro mergulhou em leituras e discussões a respeito do tema para analisar a importância das heroínas das tragédias gregas. Com texto leve, claro e rico em informações históricas e mitológicas, oferece ao leitor sua interpretação de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e seus grandes estudiosos Aristóteles, Hegel e Schelling, elucidando a seu modo os questionamentos despertados pelo título da obra. Público-alvo: estudantes de Filosofia e interessados em geral.

Sobre a autora:
Susana de Castro é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Filosofia pela UFRJ e doutora em Filosofia pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU). É professora adjunta II da Faculdade de Educação da UFRJ e membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Filosofia da mesma universidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O anseio e a deserção dos pastos da Filosofia

Acabei agora a leitura de Lavoura Arcaica de Raduan Nassar. Enfim! Continua para mim a curiosidade sobre a passagem de Raduan pela filosofia e sobre o seu irmão Raja Nassar, que também frequentava a filosofia e me parece que chegou a ser professor na USP. (Na verdade, segundo informação da Wikepédia, Raduan foi o sexto dos irmãos a frequentar o curso de Filosofia. Que anseio metafísico impulssionava esta busca familiar? Haveria alguma resposta?). Se muito se fala da desistência de Raduan da literatura é estranho que não se tente ao menos colocar em questão sua desistência da filosofia.  O texto da Wikepédia diz:

Concluído o curso de Filosofia, em 1963, no ano seguinte viaja para Lüneburg, interior da Alemanha Ocidental, a fim de estudar alemão. Através de cartas de amigos e de familiares, toma conhecimento do golpe militar de 31 de março. Comunica ao Departamento de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP sua decisão de não assumir a assistência da cadeira de Psicologia Educacional no campus de São José do Rio Preto daquela instituição. Ao mesmo tempo, abandona o curso de alemão e decide voltar para o Brasil. Antes disso vai ao Líbano e conhece a aldeia de seus pais.

Não seria um exagero pensar que toda resposta possível para essas questões estão já impressas em Um copo de cólera, mas, ainda assim... Vou ainda escrever algo sobre isso, ao menos para dar mais textura a este silêncio, maculá-lo.
Penso ler agora Menina a caminho, e deixo aqui um Livroclip que apresenta a trajetória de Raduan e apresenta Menina a caminho.


Uma ciência para antecipar e bloquear a ação de hereges acadêmicos


“– Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
 – Mas que certamente infligirão – afirmou Witner com convicção.
.– Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta. Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes. E, de certa maneira, são inocentes.”
DICK, Philip K. Minority Report.   


Quando uma Utopia, minuciosamente escada em uma teoria, é colocada em ação, tende a se reificar como dogma, cerceando a liberdade individual em favor do “ideal coletivo”. Ora, após a Segunda Guerra Mundial tornou-se comum, na literatura e no cinema, narrativas que descrevem sociedades futuras onde ideais utópicos de organização social por meio da tecnologia se degeneram em governos repressivos e autoritários; tornam-se Distopias. O conto de Philiph K. Dick “Minority Report” é uma destas narrativas de ficção científica que dramatizam o conflito entre as demandas de coerção social e o espaço de autodeterminação individual. Descreve uma sociedade futura que utiliza a ciência para antecipar ações violentas e prender seus “praticantes” antes mesmo que ele tivesse possibilidade de cometer qualquer delito. Tal ciência está longe de ser possível, mas o conto de Dick nos ajuda a imaginar situações e contextos mais restritos onde o mesmo discurso de “ataque preventivo” – fundado em uma metafísica absoluta – é utilizado para manter a estabilidade de uma determinada sociedade. 
Podemos imaginar que se houvesse mesmo uma ciência capaz de predizer com exatidão o tipo de escolhas intelectuais que cada um estaria inclinada a tomar em sua trajetória acadêmica, esta seria utilizada em processos seletivos para desqualificar os candidatos perigosamente subversivos. De qualquer forma, tal “ato preventivo” livraria a Academia de seres anômalos, que nas bancas de concurso escondem suas tendências desviantes em relação à auto-imagem paradigmática de sua disciplina.
Ora, tal ciência preditiva ainda não existe, no entanto, acena explicitamente em situações que são presságio para está visão de Distopia de uma Universidade futura com uma elite reificada que compartilha a fé em um mesmo dogma metodológico. Tal ideia pode não parecer tão negativa, já que descreve uma perspectiva que normalmente é aplicável aos padrões de racionalidade, apostando a estabilidade como platonicamente pressuposta na República de Platão, onde todos os esforços se direcionam contra a perversão da ordem.
Caricaturas positivistas deste ideal de cientificidade acabam sendo parte do cotidiano do jogo acadêmico na busca por profissionalização e certeza. Podemos dizer isto também do sistema de “revisão por pares” nas revistas científicas? Não estariam mais propensos a ser aprovados projetos de pesquisa onde os resultados já são pressupostos? Não estaria acenando aí os perigos de uma “metafísica absoluta” que impossibilita a inovação?

Randall Collins e a "luta de gigantes" pelo espaço de atenção



Os filósofos que postulavam tratar de verdades eternas também acreditavam que sua forma de pensamento seria independente de fatores culturais, sociais ou económicos. Contra essa pretensão é comum que os sociólogos construam narrativas em que demonstram a correlação entre determinadas posições sócio-económicas e o conjunto de ideias que ela potencializa. Mais do que isso, sociólogos das ideias trataram de percorrer a história da filosofia mostrando como a busca por reconhecimento dentro da hierarquia da “comunidade de filósofos” promoveria escolhas e mudanças conceituais. É isso o que Randall Collins faz em seu enorme e importante The Sociology of Philosophies:a global theory of intelectuall change. O autor procura demonstrar que é a busca por ampliação do espaço de atenção (“attention-space”), por reconhecimento dentro da comunidade de filósofos (para se posicionar como líder ou como membro de um grupo), é o que motivaria alguém a engajar-se seriamente na defesa de diferentes argumentos.[1]
Por exemplo, para Randall Collins o idealismo alemão seria uma contraparte do processo de revolução académica, afastando a universidade do domínio da Igreja e instituindo a autonomia dos pesquisadores para definir os seu próprios caminhos, tendo poder para assumir todas as esferas da vida intelectual.[2] O idealismo alemão teria se espalhado por diversos países (Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Suécia etc.) acompanhando a importação do modelo de secularização da Universidade alemã. Além disso, os antigos anseios intelectuais concentrados no campo da Filosofia foram desmembrados pelo crescente processo de especialização académica. Tal especialização influenciou também a forma como a Filosofia se desenvolveu desde então, dialogando com outras áreas do conhecimento de modo a ampliar o seu próprio espaço de atenção.
Segundo Collins, a essência da criatividade filosófica não estaria relacionada a existência de génios individuais, mas, sim, as reordenações dos espaços de conversação que só permitem que um pequeno número de filósofos ocupem o centro do palco filosófico. (p.90). O autor fala da lei do pequeno número (law of small numbers) segundo a qual o número de centros de convergência de conversação varia entre três e seis autores, que se destacariam na disputa pelo limitado espaço de atenção. (resenha de Gross p. 836). Para ocupar um destes lugares centrais não basta que este esteja vago, nem a posse de imenso capital intelectual: seria necessário impressionar figuras proeminentes desta rede de conversação, articulando crenças comuns a esta elite em um mesmo pano de fundo. Para ser protagonista no teatro filosófico seria imprescindível a autorização de outras grandes figuras da trama; conhecer os pressupostos deste palco comum e, assim, se posicionar no centro dos debates de seu tempo. 
É nessa direção que Collins explica o contraste entre o sucesso de Hegel e (relativo) fracasso de Schopenhauer. O primeiro estaria mais familiarizado com o universo académico e teria capturado grande atenção ao se aproximar da historiografia, movimento que esteve na primeira onda da constituição das disciplinas académicas; também a seu favor, Hegel teria o fato de que existiam diversas tendências filosóficas ocupando espaço no palco filosófico quando ele apareceu se colocando no centro, articulando-as e, deste modo, produzindo sua própria ascensão. Schopenhauer, embora tivesse uma ótima teia de relações, teria aparecido muito tarde e mantinha uma visão que não dava valor a História, o que contrariava o impulso reformista alinhado com a formação de disciplinas ligadas aos estudos históricos e sociais. Hegel teria sido energizado pelo espaço de atenção que conquistou, já Schopenhauer, ante a pouca atenção teria perdido energia emocional, declinando em direção a neurose; o que o fez desistir precocemente de dar aulas. Para Collins os dois autores produziram obras criativas, porém o que justifica a maior atenção que Hegel conseguiu são mais razões estratégicas do que alguma forma de mérito filosófico.[3]


[1] COLLINS, Randal. The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change. Cambridge, MA: Havard University Press, 1998.
[2] COLLINS, Randal. The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change. Cambridge, MA: Havard University Press, 1998. p.618.
[3] GROSS, Neil. “Review: Randall Collins, The Sociology of Philosophies: a Global Theory of Intellectual Change”. In: Theory and Society, vol.29. n.6. Dez., 2000. p.858-859.