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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sobre "Baudelaire e Freud" de Leo Bersani

Há duas madrugadas terminei a leitura de Baudelaire e Freud  (DIFEL, Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho,1979) de Leo Bersani.Não vou escrever sobre este livro porque não domino o jogo da psicanálise, então minha leitura parece que sempre fica inacabada. Faltam pressupostos de pressupostos de pressupostos... O silêncio nesse meu caso deve dizer alguma coisa.
Mas vamos lá. O melhor do livro é o último capítulo onde o autor trata de certo conflito entre o moi créateur (o vagabundo, o ator, o palhaço e o artista participam desta categoria) e o moi social (que incluiria o dândi, o príncipe, o narrador espectador imparcial etc). O motivo da minha leitura também está neste capítulo, num pequeno trecho citado por Richard Rorty em Contingência, Ironia e Solidariedade: "A teoria psicanálitica tornou a noção de fantasia tão profundamente problemática que não deveríamos mais considerar como certa a distinção entre a arte e a vida, ou julgarmos que a palavra "criativa" não tenha o mínimo valor análitico" (p.112). (Este último período - "ou julgarmos..."- foi omitido por Rorty.) Somando esta descrição a desenvolvida por Philiph Rieff do inconciente como a privatização do gênio romântico e estamos com a "base" de uma estética e de uma moral emergente.
Chamou-me muito a atenção um dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire chamado "Matemos os pobres!" que justificaria a aproximação do principe-dândi de Baudelaire de um herói nietzschiano.
Coloco este texto de Baudelaire num outro post.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Merci - peça de Daniel Pennac

A atriz Ana Barroso é a intérprete da peça Merci de Daniel Pennac

Quais devem ser os direitos de quem vai assistir a uma peça de teatro? Vamos consentir que você já comprou o ingresso; a partir disso é necessário alguma preparação especial? Os panfletos dão algumas informações e no caso da peça Merci de Daniel Pennac me dei o direito de não saber nada sobre o autor. Depois é que me contaram de seu decálogo dos direitos do leitor, de seu livro Como um Romance, de seu trabalho como pedagogo... Confesso que não o conhecia e ainda não o conheço, mas sei que escreve muito bem e tem aquele mal humor rabugento de quem não faz concessões ao lugar-comum, a vivência sem experiência (como diriam outros). 
Pois bem, a peça está em cartaz no Centro de cultura da Justiça federal no Rio de Janeiro. O título Merci traz o mote do monólogo: quando um autor recebe um prêmio por suas obras completas como deve agradecer, a quem deve agradecer, o que significa esta honraria e os lugares-comuns desta canonização... a peça examina este género de discurso na medida que constrói um discurso deste tipo nos fazendo rir da série da má-fé e do absurdo desta encenação da entronação de um autor. Até que ponto esta seria também uma forma de domesticá-lo? Mas, como agradecer (ou não agradecer) então? Qual evento ou quem colocar no centro desta forma metafísica de ficção auto biográfica?
Fiquei com a impressão de que o autor não encontraria nenhuma resposta e que destilava apenas um ressentimento crítico que poderia servir para apenas "renovar o género". A solução de Pennac foi "pedagógica", apontando para a função da literatura e os terrores de uma educação que não cuida e desenvolve a integração, mas faz gravitar na periferia as diferenças, reproduzindo os vícios de uma sociedade que não queremos no futuro. Fiquei pensando  no dia em que alguém agradecera aos que na escola lhe amedrontavam, na medida em que assim, criou força para se inventar e manter sua diferença, o que chamam de sensibilidade. Será preciso reproduzir este jogo de autoritarismo sádico? Esta pergunta vêm me incomodando mais e mais a medida em que volta e meia rememoro minhas aulas (assistidas e ministradas) e percebo a dificuldade em perceber a repetição deste tipo de lugar-comum autoritário. Perceber isso já ajuda a mudar. 

P.S.: Bem... a peça funcionou sem este saber prévio sobre o autor. Mas estariam nos direitos do espectador a possibilidade de que, em casos involuntários (como sempre o são), em que seu estomago emitisse ruídos estranhos (urros que fazem pensar no nascimento de algum novo Alien) contar com a indiferença paisagística do espectador ao seu lado? Lógico, cabe ressaltar que não se trata de nenhum evento que envolva emissão de algum tipo de poluente, mas simplesmente de sons estranhos vindo de seu estômago. Seria este um direito alienável do espectador: contar com a indiferença solidária de quem está o seu lado e compartilha este som? Penso que este deve ser um direito básico! E no caso da pessoa ao seu lado ser sua namorada? A situação muda de instância do Fórum dos Direitos dos Espectadores para o Forum dos Direitos dos casais de rirem das gafes mútuas? Defendo que não deveria haver está transferência de instância e espero que rememorando a cena do nascimento do Alien possa promover uma indiferença cautelosa ao menos: vai que é o nascimento de uma coisa assim!  



domingo, 10 de abril de 2011

Poesia - um filme deste cânone acidental

Assisti semana passada este delicado filme coerano. Ganhador em Cannes do prêmio de melhor roteiro o filme tem também como destaquea ótima atuação da atriz Yoon Hee-jeong, que interpreta uma avó afetada pelo Alzheimer que busca na poesia uma forma de redenção para seus inúmeros problemas. Entre o cultivo da palavra e seus esquecimento, entre a iminência da morte e a violência inumana; o filme trata tambémd a posição da mulher numa sociedade em que as diferenças de gênero são profundas.
Não quero fazer uma resenha, um resumo aqui. Cabe manter o convite para aquelas pessoas que não gostam de assistir nada que as tire o chão e produza transformação... vale se inspirar nesta poesia para que procuremos a nossa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

HQ: Mariposa, de Marcatti

Hoje li Mariposa. Uma HQ de um autor que não conhecia, Marcatti. Na verdade minhas leituras de quadrinhos são esparsas, mas estou criando um hábito de vez por outra ler uma ou outra obra. 
No caso a leitura vale muito a pena. O texto de Marcatti é muito bom e auto-irônico, parodia uma voz existencialista em off que, na maioria das vezes, romanceia uma realidade crua que o leitor "vê" nos quadrinhos. Esse jogo é muito interessante. Não é por acaso que essa sua obra foi premiada.
O padrão das relações que descreve é de parasitagem, que na narrativa gera surpreendentes harmonias entre velhas prostitutas que se tornam esposas, envelhecendo seu marido; e jovens esposas que traem seus maridos, rejuvelescendo seu amante. O fantástico da narrativa é cético e faz o leitor voutar para a apresentação inicial dos livro, que com palavras medidas nos apresenta a matriz desse universo.

sábado, 2 de abril de 2011

"a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado"


O último livro que li (de cabo a rabo) foi Fogo Pálido de Nabokov. O livro de início me pareceu cansativo. Me disseram; "é que você está se acostumando a prosa de língua inglesa, com suas sentenças curtas e ritmo mais rápido". Deve ser isso. Mas fui até o fim da leitura e a verdade é que Nabokov me derrubou. O livro é muito, muito bom! Meu estranhamento inicial era necessário para que ele pudesse produzir o seu efeito poético. 
Numa edição americana a introdução do livro é escrita por Richard Rorty, filósofo que é tema e problema das minhas insónias atuais. Rorty também fala sobre este livro no texto que escreve sobre Lolita em Contingência Ironia e Solidariedade.O encanto de Rorty talvez se sintetize no verso "a vida humana como comentário a [um] obscuro poema inacabado". Para Rorty somos este poema inacabado. Seria a partir desse verso que se estende o livro de Nabokov. Mais não digo. Vale a leitura. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

BBC: O século do self


Descrição: Documentário da BBC sobre como aqueles no poder usaram as teorias freudianas para controlar multidões perigosas numa era da democracia de massas. Legenda traduzida para português.
São 13 vídeos.Duração total: 2 horas, 18 minutos
 
Devo crédito para Janos Biro pela indicação.

Freud: pensamento e humanismo de Philip Rieff

RIEFF, Philip. Freud: pensamento e humanismo. Trad. Silvana Borin Mirachi. Belo Horizonte: Interlivros, 1979. 

Acabei de ler Freud: pensamento e humanismo (Freud: the mind of the moralist) de Philip Rieff. Ele traz uma leitura romântica de Freud que foi base para que Richard Rorty pudesse recontextualizar a psicanálise com a gnóstica Religião Americana. A chave para isto estaria nesse trecho muito citado: "A concepção romântica do inconsciente pode ter contribuído originalmente para a ideia antidemocrática de génio (Schelling), mas Freud democratizou o génio dando a todas as pessoas um inconsciente criativo" (p.56). A perspectiva terapêutica de Rieff o mote para que Rorty pudesse tentar combinar a descrição romântica de Freud com o melhorismo de Dewey. Harold Bloom seria pouco indulgente com essa possibilidade; questinando a existência de um inconsciente criativo em George Bush e lembrando da dimensão aristocrática da psicanálise.
A questão que emerge a partir do legado de Freud é o que a liberação provocada por sua popularização proporcionou de transformação em nossa própria neurose? Para alguns, como os que fizeram o documentário O século do self, a popularização da psicanálise e da busca de libertar e desenvolver as energias criativas do eu se vincularia ao desenvolvimento do capitalismo e a criação de necessidades por parte da publicidade. Rieff se mantém na perspectiva do indivíduo e não da "psicologia de massa" despersonalizada. Mas segue mantendo a questão sobre a abertura criativa proporcionada pelo legado de Freud e do conflito constante (e irreconcíliável) entre as demandas do individuo e da sociedade.
A parte essas disputas, o livro de Rieff, publicado em 1959, merece ser lido como ainda capaz de iluminar problemas que são cada vez mais urgentes. Acredito que A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperança em declínio escrito por Christopher Lasch em 1979 seja um bom contraponto a apropriação liberal-burguesa feita por Rorty.

P.S.: Não sei se continuo esse caminho de investigação lendo Lasch ou O triunfo da terapia também de Rieff. Os dois parecem interessantes.